NEGO MIRANDA

fotografia

A Eterna Solidão do Vampiro

No rastro do Vampiro

De romance a livro de fotografia, projetos trazem para o primeiro plano o nome de Dalton Trevisan no ano em que o autor completa 85 anos

Em uma das raras entrevistas que concedeu, o escritor Dalton Trevisan afirmava que seu lugar era entre os “últimos dos contistas menores”. O ano era 1972 e Trevisan já era, naquele momento, um grande contista. Passadas quase quatro décadas, a modéstia exagerada do escritor se diluiu na medida em que sua obra foi se moldando. No ano em que completa 85 anos (o escritor faz aniversário no dia 14 de junho), a singular literatura de Trevisan continua influente e vigorosa, inspirando teses acadêmicas, romances, livros de fotografia e peças de teatro.

Conhecido por sua reclusão e ojeriza a retratos, Trevisan acaba de virar tema de um livro de fotografias. Fruto de um trabalho de quatro anos, A eterna solidão do Vampiro, livro do fotógrafo paranaense Nego Miranda, traz à tona a Curitiba literária de Dalton.

Acompanhadas de frases lapidares do contista sobre Curitiba, as fotos de Miranda revelam os caminhos percorridos por Dalton Trevisan e seus personagens em uma Curitiba cujo traço mais evidente é a solidão. Protegido pelo anonimato, o rastro do contista, sempre onipresente na cidade, pode ser visto em praças, becos, inferninhos, motéis baratos e outras paisagens que compõem o pano de fundo de sua obra. Afinal, “em cada esquina de Curitiba um Raskolnikov te saúda, a mão na machadinha sob o paletó”, diz uma das frases que compõem o livro.

Está lá, de forma poética e densa, o Passeio Público que tantas vezes inspirou o contista, com sua beleza decadente feita de uma fauna variada, com as “araras bêbadas aos berros” dividindo território com “as mocinhas pra cá e pra lá na ronda sempiterna do amor”. O livro segue o rastro do Dalton andarilho, que todas as manhãs percorre a urbe de olhos atentos atrás de munição para sua poderosa prosa.

“Durante muito tempo fiz trabalhos documentais. Queria mudar um pouco e pensei em fazer algo sobre Curitiba. E a pessoa que mais conhece Curitiba é o Dalton, ele na verdade lê o porão da alma curitibana”, diz Nego Miranda, que é vizinho do Vampiro e tentou durante seis meses, por meio de amigos em comum, que o escritor autorizasse a edição do livro.

Auctoritas no conto

Aos 85 anos, Dalton Trevisan segue a mesma toada de décadas atrás, escrevendo e reescrevendo incansavelmente, todos os dias, suas idiossincrásicas histórias na famosa casa da Amintas de Barros, no bairro Alto da Glória. E ano a ano, o escritor reúne seus contos em coletâneas que são aguardadas com fervor por fãs e admiradores. Seus últimos livros têm dominado os grandes concursos literários do país. No maior deles, o Portugal Telecom, Dalton é o único escritor que figurou entre os três primeiros colocados em mais de uma edição desde que o concurso foi criado, em 2003. O curitibano ganhou, junto com Bernardo Carvalho, a primeira edição, com Pico na Veia, e ficou em segundo lugar em 2007, com Macho não ganha flor. Este último livro, aliás, ganhou uma elogiada adaptação para o teatro feita pela Cia. Máscaras de Teatro e acaba de estrear nova temporada em Curitiba, depois de ter passado por cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

“Dalton Trevisan ocupa o lugar de um escritor de primeira. Uma auctoritas no conto contemporâneo de língua portuguesa. Não seria desarrazoado referi-lo como o maior prosador vivo do Brasil”, diz Alcir Pécora, professor de literatura da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ao ser perguntado sobre o lugar do curitibano em nossa história literária.

O escritor que assombrou o supercrítico Otto Maria Carpeaux ao nomear seus contos de estreia de Novelas nada exemplares (1959), parodiando as Novelas exemplares de Cervantes, fez das palavras do próprio Carpeaux, que viu em Trevisan “um observador atento dos pormenores da realidade”, sua profissão de fé. Em histórias que radiografam o provincianismo de uma cidade que apenas se parece com a Curitiba do escritor, Dalton forjou uma literatura de grande singularidade. Não só pelo tão propalado minimalismo de sua linguagem, que se vale do silêncio e das elipses para contar grandes histórias em pequenos contos, mas porque criou uma obra de múltiplas leituras.

“Para mim, a singularidade de sua obra reside no controle lingüístico sobre a mitologia engenhosa que construiu com paciência e determinação. A concentração que obtém em seus escritos é rara, e isso inclui ao mesmo tempo uma extraordinária economia de elementos de composição e uma experimentação constante na prosa. Desse ponto de vista, ele está no contraponto da prosa contemporânea brasileira que, em geral, segue o ramerrão do realismo do século 19”, justifica Pécora, que vê em O vampiro de Curitiba o exemplo mais representativo da obra, “de alto nível”, do escritor.

Lançado em 1965, o livro revelou ao mundo Nelsinho, um vampiro provinciano que ataca mocinhas indefesas e se alimenta não de sangue, mas de sexo. O livro, de imediato, entrou para a galeria de obras-primas da literatura nacional e, de quebra, deu ao seu autor o apelido que ficaria conhecido dali em diante: Vampiro de Curitiba.

Joaquim

O jornalista Luiz Claudio de Oliveira também se rendeu à obra do escritor e o resultado é Dalton Trevisan (en) contra o Paranismo, livro que destrincha o trabalho que Trevisan desenvolveu antes de se tornar o grande contista, quando editou, entre os anos 1946 e 1948, a revista Joaquim, uma das publicações mais representativas, na área cultural, da primeira metade do século 20 no Brasil. O estudo é fruto de dois anos de pesquisa, realizada no curso de mestrado em Estudos Literários da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e revela como surgiu a verve crítica – e também literária – do Vampiro de Curitiba.

Reunindo a nata da intelectualidade nacional, a Joaquim foi palco para discussões sobre o momento cultural da época em trabalhos assinados por Carlos Drummond de Andrade, Temístocles Linhares, Wilson Martins, Antonio Cândido, Di Cavalcanti, Portinari e Poty Lazzarotto. As 21 edições da revista, além de agitar o ambiente cultural da cidade, serviram também para que Dalton Trevisan burilasse sua prosa, já que a cada número o escritor publicava um novo conto.

“O escritor e pesquisador Miguel Sanches Neto escreveu uma tese de doutorado em que afirma que Dalton usou a revista como plataforma de lançamento de sua carreira literária. De fato, e desde os primeiros escritos podemos observar algumas características que permaneceram na história literária do escritor. Mas Dalton, como faz até hoje, reescreve e reescreve sempre que tem a possibilidade”, diz Oliveira.

Miguel Sanches, aliás, é autor de outro título lançado recentemente que traz para o primeiro plano o nome de Dalton Trevisan. Depois de ter escrito, em 1996, Biblioteca Trevisan, uma reunião de ensaios sobre a obra do contista curitibano, Sanches Neto lançou recentemente o polêmico romance Chá das cinco com o Vampiro, livro que lhe custou a amizade do contista por supostamente revelar detalhes da vida pessoal do verdadeiro Vampiro. A amizade acabou antes de o romance ser lançado com um irado poema de Dalton chamado “Hiena Papuda” e endereçado ao ex-pupilo. Sanches Neto, apesar de todas as evidências, sustenta que seu livro é uma obra de ficção que pouco tem a ver com a realidade e com a relação que travou com Trevisan ao longo dos anos 1990.

Longe das especulações extra-literárias, Trevisan parece não se importar com o que escrevem a seu respeito, apesar de alimentar, ele mesmo, um arquivo sobre a fortuna crítica de sua obra na Biblioteca Pública do Paraná. Nem mesmo a pecha de repetitivo faz o escritor desviar uma vírgula de seu projeto literário. O que, para o crítico Alcir Pécora, só aumenta os méritos literários do contista.

“Acho que a repetição é um recurso extraordinário nas mãos de quem a saiba usar: ela permite a construção de uma gramática na qual a menor variação é significativa. Dissolver uma rosquinha na língua, ali, traz um mundo inteiro de significações. Portanto, quando mais parece se repetir, menos se repete de fato, pois a menor mudança já produz uma enorme mudança”. E assim, espiando pela janela de seu casarão, o Vampiro segue fiel à sua obra, à espera da eterna solidão.

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