NEGO MIRANDA

fotografia

Engenhos & Barbaquás

MEMÓRIA E DESAFIO

Hoje, com tantas possibilidades que se abriram para a produção da imagem fotográfica, quando muito mais importante que ‘tirar’ fotografia é ‘fazer’ fotografia, constatamos o crescimento de trabalhos profissionais que seguem a tradição purista da documentação e do fotojornalismo. Para esses, a fotografia continua sendo uma linguagem portadora de ideias culturais próprias, produzida a partir de um olhar ideologicamente preocupado com a realidade, e com total liberdade de expressão e interpretação.

Inserida nessa concepção, está a fotografia de Nego Miranda, aquela que busca a decifração de grupos sociais específicos, registrando seus cotidianos e procurando identidades. Um olhar curioso, solidário, comprometido em profundidade com a transformação e o desaparecimento progressivos dos trabalhos artesanais. Um olhar que transpassa as aparências e tenta fazer história com intensidade, através da documentação exaustiva e, reconhecidamente, singular.

O desejo final de todo profissional que trabalha com fotografia documental é que suas imagens não se esgotem na banalização, mas que tenham a autonomia que justifique sua existência. No caso de Miranda, seu ensaio sobre os trabalhadores do mate é a tentativa de registrar, através da fotografia, a memória dos últimos indícios de uma atividade tradicional que dominava boa parte da paisagem do estado do Paraná. Assim como escreveu Luís Bunuel em seu livro O último suspiro ‘ “uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidade de exprimir-se não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela, não somos nada” -, Miranda desenvolveu sua documentação com vivência e seriedade, fortes características desse género de fotografia.

Com uma enorme atração pela observação sem interferência, sua fotografia é uma combinação perfeita entre a imaginação criativa e uma narrativa que busca no documental aquilo que Webster define como “evidência, verdade, que transmite informação, juízo autêntico”. Por isso, as fotografias de Miranda evidenciam sua intimidade com o tema, traçando um amplo panorama do ciclo do mate: dos trabalhadores ao ambiente, dos casarões aos processos artesanais de seleção e estoque da erva. Com simplicidade e sabedoria, ele evidencia o cotidiano dessa atividade, com enfoque interpretativo e assumidamente romântico.

Miranda parece possuir uma vocação para apontar sua câmera na direção de um universo em extinção e, sabendo disso, usa a lucidez não para documentar a destruição do processo, mas para registrar com força testemunhal a estética do trabalho artesanal e a beleza do meio ambiente. Contundente, ele documenta os trabalhadores do mate não para registrar seu fim, mas para nos dar consciência de uma realidade que nos remete ao caráter trágico da existência humana. Uma coisa é edulcorar a realidade, outra é vivenciá-la, o que ele faz com experiência e profundidade.

Os retratos e paisagens assumem uma visualidade mais clássica, próxima da estética realista, sem a máscara da vaidade, sem os artifícios da imagem construída; enquanto que os registros nos contra-luzes dos ambientes de trabalho emergem com mais força, porque os homens adquirem uma expressão evanescente que desloca nossa atenção e estimula nossa imaginação. São fotografias mais circunstanciais, nas quais prevalecem o acaso e um comentário mais difuso da realidade.

Isso é que provoca uma lucidez sem ilusões, que dá às imagens uma dimensão misteriosa, que reordena um universo em extinção, que transforma em memória a vivência do fotógrafo. Miranda, em seus trabalhos ensaísticos, sabe como provocar o leitor, deslocando-o para um mundo distante, onde prevalece a dignidade do homem e do seu cotidiano de trabalho.

Com essa perspectiva é que podemos avaliar a fotografia documental de Nego Miranda, na qual a inspiração e interpretação sugerem um profundo envolvimento com o tema, e sua motivação consciente elabora um ensaio que sintetiza uma fantástica visão do homem e seu trabalho. Miranda devolve à fotografia a possibilidade de viajar no tempo e no espaço, ao mostrar um mundo captado através de um olhar crítico, paciente e, simultaneamente, revelador. No silêncio da imagem, a lembrança; no reconhecimento, o inevitável percurso das transformações.

Rubens Fernandes Júnior

MEMORY AND DEFIANCE

Today there are so many possibilities for production of photographic images, when “taking picture” is more important than “making photograph”. We observed the growing of professional works that follows the purist tradition of documentation and photojournalism.

For those, the photography still being a language portraying cultural ideas of its own, created from a vision ideologically concerned about the reality and total freedom of ex pression and interpretation, Inserted in this conception, is the photography of Nego Miranda, the one seeking to decipher specific social groups, recording their daily lives and looking for their identities. A curious look, solidary, profoundly engaged with transformation and the increasing disappearing of craftsmanship. A look that goes beyond the appearances and tries to make history with intensity through exhausting documentation and acknowledged rarity.

The final wish of every professional who works with documentary photography, is that their images will not fall into banality,, but they must have the autonomy that justifies its existence. In Miranda’s case, his essays on the “mate ” workers, is the attempt to record through photography , the memory of the last evidences of a traditional activity used to be predominant in most part of the landscape of Parana. Just like Luis Bunuel wrote in his book “The Last Sigh “- ‘A life without a memory wouldn’t be a life, just like an intelligence without the possibility of expressing itself wouldn’t be an intelligence.

Our memory is our coherence, our reason, our action, our feeling, without it we are nothing’. Miranda has developed his documenting with life experience and seriousness, these are the remarking characteristics in this kind of photography. With great interest in observing without interference, his photography is a perfect combination between creative imagination and a narrative that searches in the documentary photography , what Webster defines as “evidence”, truth that brings out information, authentic notion. That’s why Miranda’s photographs are evidence of intimacy with the theme, tracing a vast panorama of the “mate era”*. From the big farm houses to the art craft selection process and the stocking of the herb (*mate). With simplicity and wisdom he witnesses the evidences of these daily activities with focused interpretation and assumed romanticism.

*mate = South American plant, the dried leaves of which are used, specially in Paraguay in making an aromatic, stimulating drink. Also called Paraguay tea.

Rubens Fernandes Júnior