NEGO MIRANDA

fotografia

Folhas Amargas

META-RETRATO

para Nego Miranda

Quando os fatos nos impõem seu princípio da realidade, o fotógrafo não é senão uma oportunidade de tempo e lugar para fazer ou conseguir algo: o olho da imaginação nos permite viver de acordo com as pressões do meio e todo outro sentido se subordina à vida que flui e que escapa à vida que o criou.

Para alcançar essa transmutação na fotografia, em privilegiados seres humanos, essa faculdade de passar nossa força, isso que se chama destino, essa faculdade de passar para outra pessoa seu mundo interior, deve existir essa identificação: a intuição privilegiada de prever o que se deseja obter espiritualmente.

Chinolope

 

De chimarrão e charutos

De tempos em tempos, os habitantes deste trópico frio curitibano são lembrados, pela arte ou pela guerra, de que são latinos. Quase surpresos, descobrem que fazem parte do mesmo continente de Gardel e Maradona, Allende e Neruda, Fidel e Che Guevara. Lembrança por vezes incômoda, porque estabelece certa cumplicidade entre descendentes de imigrantes europeus, de olhos sempre voltados para o Atlântico, e os povos de ontem e de hoje desta América Latina de veias abertas e coração sangrando. Vez por outra, porém, vestígios dessa latinidade revelam-se por descuido, na paixão escondida pela guarânia, nos passos de tango ensaiados na sala de jantar, na familiaridade com castelhano ou no cantarolar distraído da letra de um velho bolero.

A exposição “Folhas Amargas” do fotógrafo Nego Miranda, é um desses raros momentos de claro entendimento da latinidade esquecida. Ao mostrar, ao mesmo tempo, as “folhas amargas” da erva-mate e do tabaco, o trabalho de Miranda é radicalmente latino-americano. Une duas pontas extremas da história do continente: os guaranis da fronteira do Tabaco de Tordesilhas, que ensinaram ao colonizador espanhol as virtudes da erva-mate, e os cubanos que imortalizaram em charutos de sabor inigualável as delícias do tabaco descoberta pelos nativos antilhanos de Tobago. Como sempre, os negócios com o colonizador foram inversamente proporcionais. Os índios guaranis, em troca da primeira cuia de “caa”, foram escravizados e condenados a uma lenta agonia e os antilhanos de Tobago desconhecem, até hoje, qualquer participação nos lucros das poderosas companhias de tabaco espalhadas pelo planeta.

As fotos de Miranda buscam outras semelhanças, bem mais contemporâneas, entre as duas folhas. Revelam a intimidade da produção do mate, no interior do Paraná, e de charutos, em Havana, Cuba. Lá – como – cá – trabalhadores transformam uma dádiva da natureza em fonte de prazeres sutis, com simplicidade e sabedoria. O conhecimento dos ancestrais para a escolha da melhor planta e do ponto certo do fogo no preparo das folhas garante, ainda hoje, o melhor produto.

Nos detalhes, emergem as diferenças desenhadas pela história. Os trabalhadores dos engenhos de mate mostram a face tosca de um processo ainda artesanal, enquanto a ordem interna da fábrica de Havana mostra o cuidado extremo na fabricação do produto, cuja qualidade é vital para a economia do país.

Entre diferenças e semelhanças, há um inequívoco toque de magia no trabalho de Nego Miranda, vindo, talvez, da “poeira do mate” que transforma os trabalhadores em duendes, das contas do colar da cubana que parece ter saído de um livro de Carpentier ou da foto de “Che” na parede da fábrica de Havana, com seu indefectível charuto, marca registrada dos sonhos libertários da América Latina.

Teresa Urban – 1995