NEGO MIRANDA

fotografia

Igrejas de Madeira do Paraná

Este trabalho do Nego Miranda é a melhor contribuição iconográfica para que se compreenda a civilização construída em madeira que predominou nesta área do planeta por mais de um século, até que a devastação exterminasse nossa floresta atlântica.

Os imigrantes aqui chegavam para explorar a mata. A maior riqueza disponível não eram os metais, nem era o fruto da semeadura, era a madeira extraída para edificar nossas casas, nossos móveis, nossas cidades e para exportá-la para o mundo.

Dos monumentos que restaram dessa Idade da Madeira paranaense estão as igrejas construídas por artesãos incríveis, que no mais das vezes procuravam reproduzir em madeira a arquitetura de seu lugar de origem, onde os materiais eram outros. Pedra, cimento, tijolos. Nas fotos de Miranda há catedrais ortodoxas feitas em madeira de lei que resistem ao tempo e ao descaso no interior do Paraná.

Mas a mesma coragem pioneira e disposição para extrair e construir, numa época em que a devastação era sinal de progresso, determinou o fim de todas as reservas naturais. Hoje, temos manchas pequenas de mata atlântica preservadas à muito custo. O restante sumiu. Ficaram os vestígios em exemplos maravilhosos de arquitetura em madeira, especialmente nas igrejas, preservadas, ao contrário das demais construções que pouco a pouco vão sendo substituídas.

Miranda nos restitui, sem truques, sem intervenções adulteradoras, e com sinais de sua refinada sensibilidade, a imagem fresca de um passado cujos traços começam a desaparecer por completo e do qual só teremos, dentro em pouco, as imagens feitas pelo mestre.

Fábio Campana

Igrejas de Madeira do Paraná

Sabe-se que a Antigüidade Clássica construiu seus templos, inicialmente, em madeira. A prosperidade permitiu a substituição de partes em madeira por material mais perene, a pedra, e, gradualmente, viu-se o erguimento da totalidade dos edifícios sacros em pedra. Nela, os elementos anteriores de madeira foram lembrados, persistindo na forma de colunas, relevos, frisos e perfis, associados ao sistema arquitravado. Assim narra a história da arquitetura, justificando o surgimento das “ordens clássicas” nos templos gregos. E estes edifícios, os mais elaborados e eruditos da produção humana antiga, tornaram-se, nas suas relações de proporção, ordem e harmonia, o paradigma recorrente até o presente. Porém, a relação destas formas com a madeira transcende a simples reminiscência. Trata-se, como lembra Portoghesi, também de um “modelo espiritual” a ser perseguido. “… também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra erguerei minha igreja…” Mateus, 16.

E se a pedra tem sido, tradicionalmente, associada à solidez de instituições, à estabilidade de grupos sociais, ao enraizamento, ao domínio e a posse de terrtórios; à madeira raras vezes tem sido atribuído o mesmo papel. Na arquitetura, o desejo de perenidade parece distanciar os materiais orgânicos dos edifícios e monumentos celebrativos. Estes são conduzidos, inexoravelmente, a um papel complementar e acessório. Raras as culturas que se adaptaram à madeira e, quando tal ocorreu, se deveu à exigüidade de materiais mais resistentes ao tempo, como no Oriente, onde foi desenvolvido um modo de convívio ritualístico com esta limitação. No Japão, novos monumentos são reerguidos como réplicas exatas ao lado de similares antigos, numa constante e interminável renovação.

Quando se trata de construções religiosas, o que prepondera é o desejo de comemorar, na monumentalidade e na permanência dos materiais, a eternidade e o poder de deuses, para as religiões politeístas, ou do Deus único, nas monoteístas, bem como o exemplo daqueles que se distinguiram ao professar uma fé. Se na história da humanidade, desde tempos imemoriais, o culto teve um lugar privilegiado na vida e na agregação de grupos, o local de celebração dos ritos foi e continua sendo peça chave para a compreensão da vida e da cultura dos povos.

No Brasil, desde o século XVI prepondera a religião Cristã Romana (a partir de 1517 chamada Igreja Católica Romana) trazida pelos portugueses. Os seguidores do cristianismo, organizados em diversas “igrejas” e “comunidades” diferenciadas entre si com base nas interpretações de fé, tinham em Portugal vínculos históricos com a Igreja Cristã do Ocidente. Aliás, o nome dado às terras recém conquistadas, Santa Cruz, homenageava esta fé.

Da Primeira Missa à chegada das ordens religiosas difusoras do cristianismo, na metade do século XVI, jesuítas, beneditinos, carmelitas e franciscanos estabelecem as bases da modelagem da cultura, mentalidade, religiosidade e, naturalmente, das artes do Brasil.

“No Brasil, até a segunda metade do século XVIII, a arte foi quase que exclusivamente religiosa. A igreja é, portanto, o lugar para o qual convergem as aspirações de transcendência, buscadas pelas almas ainda primitivas (sic) deste período ‘colonial’ e os próprios espetáculos são, na maioria das vezes, representações religiosas, como no caso dos mistérios da Idade Média”.3

Sobressai, como resultado da sua orientação de catequese, a ordem criada por Inácio de Loyola em 1534, a Companhia de Jesus. Em todos os recônditos do mundo, desde a sua formação, esta congregação missionária tomou a si a incumbência de transformar mentes e costumes, conformandoos aos seus propósitos civilizatórios. No Brasil, o apogeu jesuíta se deu nos séculos XVI e XVII.

No entanto, no século XVIII, a ação da Companhia de Jesus seria sensivelmente reduzida em decorrência da perseguição pombalina e do desenvolvimento de uma sociedade secular que, aliás, os próprios jesuítas ajudaram a formar. Os estabelecimentos desses padres cobriram praticamente todo o território do Brasil colonial “que deve ao espírito desbravador dos missionários a sua expansão em regiões exploradas como o Maranhão, o Pará, o Ceará, e o planalto paulista”.4

No sul do país, os “Sete Povos das Missões” dão uma dimensão do que foi a ação dos padres jesuítas nesta parte do território, por meio da monumentalidade de sua arquitetura. No Paraná, na cidade de Paranaguá, o colégio erguido em meados do século XVIII constitui um dos mais expressivos legados de sua presença. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá, próxima a Serra de São Luiz do Purunã, é outro testemunho local da simplicidade aliada à erudição das igrejas setecentistas desta ordem religiosa.

Ao chegar no Brasil, inicialmente, fizeram construções de madeira ou de barro cobertas de palha. Para projetá-las não havia necessidade de arquiteto, um carpinteiro habilidoso era o que bastava. “Os padres, num impulso comum, se improvisaram em construtores, como vimos acontecer no colégio de Piratininga (São Paulo), edificado entre 1554 e 1556, sob a direção do Padre Afonso Brás. Uns se tornaram tracistas, outros, pedreiros, e outros, carpinteiros; tinham a ajuda dos índios, cujas moradias eles mesmos ergueram, ao redor do colégio”.

Passados vinte anos, os jesuítas começaram a construir templos com material durável e a Assistência de Portugal enviou um de seus peritos na profissão de arquiteto, o Irmão Francisco Dias, que foi responsável por grande parte dos projetos de edifícios religiosos e colégios da irmandade.6

As igrejas luso-brasileiras dos primeiros séculos foram, nestas circunstâncias, concebidas e construídas de modo extremamente econômico, em todos os aspectos, mas mantendo o elo projetual e técnico-construtivo com Portugal.7 Como material de construção, foram adotadas pedra e cal nas regiões litorâneas, e a taipa-de-mão ou de pilão, no interior. A estrutura de telhados era feita em madeira e a cobertura em telhas de cerâmica, capa e canal. Estes templos eram constituídos à frente de um pórtico de entrada coroado por um frontão e, ainda, de uma torre sineira lateral. No interior, possuíam uma nave única que, geralmente ampla, terminava no fundo da igreja, no altar-mor, ladeado pela sacristia. O telhado do corpo principal era dividido em duas águas com acabamento em beiral. Caiadas de branco, as portas e janelas eram emolduradas em cantaria ou madeira pintada em anil. Os interiores eram austeros, com piso de pedra, madeira, ou ambos, degraus, guarda-corpos, molduras e pia batismal em cantaria. Os forros de tabuado largo de madeira eram geralmente pintados com temas figurativos alusivos ao santo padroeiro.

A passagem do tempo e a consolidação de vilas e cidades propiciou a difusão de ordens religiosas, de paróquias e, conseqüentemente, a construção de novas igrejas, colégios e mosteiros. Os desenhos foram aprimorados, a mão-de-obra nas diferentes artes aperfeiçoada, dando origem a uma certa exuberância e originalidade. O barroco das igrejas nordestinas e da região das Minas Gerais corresponde ao apogeu do processo de desenvolvimento da arte religiosa luso-brasileira, alcançado no final do século XVIII.

A chegada de imigrantes da Europa Central e do Leste ao sul do país, a partir do século XIX, provocou uma alteração de rota na trajetória construtiva e artística dos edifícios dedicados ao culto cristão. Some-se, agora, a herança de manifestações que não correspondem apenas ao rito católico romano, mas também ao católico bizantino, cristão ortodoxo e protestante. As referências diretas a arte e arquitetura medievais, que constituem o repertório do imaginário destes povos, as distingue da portuguesa mediterrânea que, à época das grandes navegações e descobertas, já se encontrava impregnada do espírito restaurador dos modelos clássicos.

De imediato, os recém-instalados adotaram nas suas construções os materiais locais mais abundantes, o barro e a madeira extraída das ricas florestas e reproduziram, em construções ainda muito rústicas, os modelos ancestrais. Aos poucos, foram diversificando as tipologias, em conformidade com as necessidades e usos — doméstico, do trabalho, do lazer e da religião — apurando procedimentos e desenvolvendo técnicas, como o do emprego da madeira serrada. Assim, criando, adaptando e consolidando, chegou-se a um belo e surpreendente repertório de soluções formais.

As igrejas de madeira da Ucrânia, Eslovênia, Polônia e Rússia, em particular, têm sido objeto de crescente interesse de preservação, em conseqüência de seu incontestável valor artístico. Os estudos também têm sido cada vez mais aprofundados e específicos, buscando as diferentes manifestações em conformidade com as regiões, etnias e técnicas empregadas. Obras como a de David Buxton9, abriram caminho e constituem referência obrigatória para os estudos sobre as tipologias encontradas naquelas localidades e seus diferentes desenvolvimentos no tempo e espaço. Cada uma das correntes religiosas derivadas do cristianismo, assim como cada versão local, concebeu um espaço de culto claramente definido, do que derivam formas e soluções características. O domínio técnico-construtivo também resultaria diversificado, tal qual a habilidade no emprego dos materiais de construção trabalhado, por vezes, de maneira muito esmerada.

Para compreender como a madeira foi e continua sendo a opção mais popular para a construção das igrejas no interior do Paraná, é preciso observar esses pressupostos culturais, à luz da escassez de recursos característica dos assentamentos pioneiros, mas também do processo de integração dos diferentes grupos imigrados ao longo do tempo e, ainda, da história recente das religiões por eles seguidas.

Os trinta e três exemplares aqui retratados formam um grupo de igrejas católicas romanas, católicas orientais bizantinas, cristã ortodoxa e luterana, todas elas ligadas às tradições religiosas e construtivas dos grupos emigrados: poloneses, ucranianos10, alemães e italianos. Dentre eles, os ucranianos católicos de rito bizantino são aqueles que possuem uma arquitetura religiosa em madeira de princípios mais rigorosos, com profundas sutilezas e variações, e em conformidade a grupos étnicos distintos (p. ex., do grupo Lemko, dos Montes Cárpatos ou nas variações encontradas entre as diferentes aldeias da Galícia).

No Paraná, as igrejas de madeira fazem parte, na sua grande maioria, de um universo de edificações concebidas como provisórias. Não foram feitas para longa duração. Foram pensadas para serem substituídas posteriormente, quando uma circunstância mais favorável o permitisse. E, de fato, assim ocorreu com muitas igrejas que conhecemos apenas de imagens e narrativas. A igreja católica romana da colônia polonesa de Santa Bárbara, a primeira a ser construída na última década do século XIX e demolida nos anos vinte do século passado, é uma delas. Elegante e longilínea, é celebrada orgulhosamente na memória da comunidade que ergueu uma nova em seu lugar, de mesma devoção, em alvenaria de tijolos, feita “para durar mais tempo, maior em seu tamanho, mais bonita, mas guardando uma certa semelhança com a velha”.11

A transitoriedade programada, ao invés de desvalorizar estas realizações, aumenta seu interesse. Curiosamente, tal condição leva a uma apreciação distinta da convencional: é sempre desconcertante perceber o desvelo com que certas obras humanas, em especial aquelas mais fugazes, são elaboradas. Talvez resida aí seu principal atributo. O caráter efêmero dessas obras contrasta com os edifícios religiosos convencionais — sólidos, imponentes e, mesmo quando em ruínas, poderosos. Assim, as igrejas de madeira trazem incorporadas, na sua fragilidade, uma condição inexorável à própria existência.

Elas foram implantadas, na sua grande maioria, em áreas rurais. A pressa dos imigrantes em erguê-las é justificada pelo regime a que foram submetidos: isolados em pequenas propriedades distantes umas das outras, a igreja significava a possibilidade de reunião, a troca de experiências e notícias, o local onde era ministrado o catecismo e se faziam batizados, se celebravam as festas, se fazia o namoro, os casamentos, as exéquias, além do culto dominical obrigatório. Nelas se davam os ritos de passagem, os encontros, as festas, em suma, toda a vida social.

Os edifícios religiosos de madeira do Paraná, construídos por imigrantes, pertencem a tradições vernáculas altamente desenvolvidas, conformadas e aprimoradas em trocas freqüentes com manifestações eruditas.12 Marcos em meio à ambientação bucólica surgem na paisagem de pinheirais, em cantos cuidadosamente escolhidos, facilmente acessíveis e a meio caminho das propriedades dos paroquianos.

Os volumes possuem uma geometria em que formas diversas se sobrepõem, montando uma figura precisa: pórtico, torre sineira, nave, altar e sacristia — cada um deles com sua cobertura, em combinações variadas, mas sempre de algum modo similares, para que possam ser facilmente reconhecidas. Organicamente integrados, estes volumes constituem um corpo único, leve, antitectônico, sem massa — declaradamente uma caixa. Eventualmente a torre sineira é erguida como uma edificação à parte, colocada defronte à igreja. Atrás dela pode estar localizado, ainda, o cemitério.

A madeira serrada e disposta em tabuado vertical e mata-junta e o desenho da planta em cruz latina são adotados, originalmente, nas igrejas católicas romanas, de acordo com o princípio milenar desenvolvido pelo Ocidente. Estas igrejas transpõem para a madeira elementos da arquitetura religiosa medieval. À frente, o pórtico de entrada, em volume mais estreito do que o do corpo principal da igreja, pode ou não servir como base do campanário, o qual fica acoplado ao corpo principal da igreja ou constitui um corpo independente. De forma retangular, o volume principal é, muitas vezes, dividido em três naves, a central, geralmente de pé-direito mais alto, sugere o sentido de elevação próprio às atividades de culto religioso. O forro, em tábuas de madeira, pode ser plano ou abobadado. As aberturas de janelas costumam ser de proporções predominantemente verticais, arrematadas com bandeiras, em arcos plenos, abatidos ou ogivais com uso de vidros coloridos — à maneira de vitrais.

No lado oposto à entrada, encontra-se o altar, num volume mais estreito, parte dele em forma de abside. A sacristia pode corresponder ao lado do altar, num prolongamento da cobertura da nave. Os espaços simples e econômicos, muitas vezes com profusão de cores, pinturas, imagens e desenhos são agradáveis e convidativos. Ainda que alguns altares, confessionários e bancos de fiéis possam chamar a atenção por sua cuidadosa elaboração, diferem significativamente dos retábulos das ordens religiosas estabelecidas desde os tempos da chegada dos portugueses.13 Não há móveis em jacarandá-da-baía ricamente entalhados, nem a presença dos sofisticados retábulos barrocos. Mas os jogos de luz e sombra — em que as cúpulas, lanternins, óculos e iconóstase propiciam variedade e movimento nos interiores do edifício — são usuais, especialmente nas igrejas de rito bizantino.

As igrejas orientais de madeira seguem a tradição devida à Igreja de Santa Sofia, em Istambul (Constantinopla, antiga Bizâncio), datada do século VI, que possui a planta na forma de uma cruz grega. É certo que esta forma remonta à memória de antigos santuários e ao arquétipo bíblico do templo arquitetonicamente perfeito, o Templo de Jerusalém. Nelas, os braços são de mesmo tamanho e a cobertura tem uma cúpula principal centralizada que é apoiada em pendentes que descarregam em colunas, havendo outras quatro cúpulas, correspondentes aos braços da cruz. Esta feição característica do tema proposto em Santa Sofia foi traduzida em infindáveis combinações por meio das quais a influência deste modelo se propagou, no percurso da adoção da religião católica oriental e ortodoxa por povos da Europa do Leste, Central e do Norte. Neste percurso, sofreu transformações e adaptações peculiares às culturas e ambientes encontrados.

Estabelecidas no antigo Império Romano do Oriente, ou dissidências do culto romano, à Igreja Oriental pertecem as Igrejas Ortodoxas (todas as Igrejas Orientais que desde 1054 romperam os vínculos com a Igreja Romana do Ocidente), as Igrejas Orientais unidas a Roma, as antigas Igrejas nacionais Nestoriana, Monofísica, Copta e Etíope.14 O grupo ucraniano que emigrou para o Paraná pertence, na sua maioria, à Igreja Oriental unida a Roma, embora também existam grupos emigrados de cristãos ortodoxos.

Construídas em tronco de madeira, em elaboradas combinações, as igrejas rurais católicas e ortodoxas da Europa Central e do Leste devem suas variedades às contribuições e habilidades construtivas dos povos destas regiões. As cúpulas bulbosas — com seu significado místico, cobertas com telhas de madeira ou placas metálicas douradas — são os elementos orientais mais exóticos, nesta persistência e reinterpretação de formas e tradições. No Paraná, o imigrante ucraniano usou-a muitas vezes, embora em combinações bem mais modestas que os exemplares encontrados na região de origem.

“… Essa forma, externamente, possibilitava a convivência do simbolismo cristão com significados ancestrais de se construir o espaço sagrado numa recriação da imago mundi. Esta disposição delimitava também os espaços internos da igreja. Seguindo o modelo arquetípico do Templo da Jerusalém Celeste, a igreja (…) distribui-se em três grandes partes: a dos gentios (babenétz), a dos fiéis (virneh) e o santo santorum”.15

Nos templos ucranianos bizantinos, uma parede divisória — o iconóstase — ou simplesmente um biombo separa as áreas do santuário (Sanctus Santorum, o Paraíso) e da nave (a Terra). O iconóstase, no qual, tradicionalmente, são colocados os ícones — pinturas religiosas que retratam figuras sagradas em postura fixa, vivamente coloridas e planares — tem uma ou três aberturas, uma central e duas laterais, as quais fazem a ligação entre a nave e o santuário. A central, chamada de Portão Celestial, é mais solene, de uso freqüente dos prelados e os vãos laterais, dos fiéis. Nas igrejas ortodoxas européias os iconóstases aparecem em formas extremamente sofisticadas, com as imagens dispostas em filas, hierarquicamente arranjadas.

Segundo Dom Efrain Basilio Krevey, bispo da comunidade católica ucraniana no Paraná16, o iconóstase, embora estivesse presente nas igrejas locais mais antigas, gradualmente desapareceu. Nessa trajetória, características das igrejas católicas romanas foram também absorvidas, e as igrejas bizantinas mais recentes tornaram-se quase irreconhecíveis dada a adoção de naves alongadas e ausência dos signos que conferem sua identidade e remetem à sua origem oriental. A imigração para o continente americano provocou, ao longo do século XX, a conformação, a simplificação e a descaracterização da concepção e da fatura das igrejas, como decorrência das precárias condições locais e da escassez de recursos materiais e mão-de-obra habilitada. Num primeiro momento, a persistência de vínculos com a cultura de origem se manifesta no rigor e na aplicação atenta das normas características das construções religiosas, o que permitiu um certo grau de pureza na transposição da arte bizantina. Com a passagem do tempo, contudo, os vínculos se afrouxaram e houve uma visível perda das qualidades construtivas e artísticas iniciais.

Em exemplares mais recentes, outras formas de organização podem ser encontradas nas igrejas bizantinas, como a planta octogonal, tributária da Igreja de São Vitale, de Ravena, na Itália, construção do século VI. Mas seu emprego constitui episódio isolado, resultado talvez do acaso ou da vontade de inovar, fruto da falta de rigor e do esquecimento dos modelos e técnicas tradicionais. A beleza, a unidade e a harmonia dos volumes e dos detalhes arquitetônicos, possível somente pela transmissão do conhecimento, perdeu-se inexoravelmente.

A pintura das igrejas de madeira do Paraná também tem profunda ligação com o repertório visual das artes oriental e bizantina, incorporado aos rituais religiosos. As cores vibrantes, a presença constante de douração e o tratamento planar e decorativo dos mosaicos bizantinos persistem, ainda que diluídos e amalgamados em outras influências. Independente do caráter dos temas escolhidos — sacros, como a vida de Cristo e Maria, de santos e apóstolos, cenas bíblicas dos Antigo e Novo Testamento; ou laicos, em que motivos florais e geométricos irrompem em arabescos, rendilhados e molduras —, eles são realizados a óleo ou têmpera nas pinturas figurativas; ou com máscaras sobre o tabuado de madeira das paredes laterais, dos iconóstases e dos forros. O resultado é bem diferente daquele obtido com o mosaico. É surpreendente notar o efeito da tapeçaria oriental logrado com estas pinturas, o que remete, talvez, ao hábito de colocar tecidos e tapetes nos interiores de templos no Oriente Médio e Europa do Leste, protegendo os fiéis do frio. Os ricos e intrincados bordados comparecem nas toalhas que cobrem os altares e nos paramentos eclesiásticos.

Não raro, além da construção principal, a igreja propriamente dita, ergue-se ao lado um salão paroquial, para as festas religiosas e comemorações ligadas à vida dos paroquianos. Pode ser fechado ou aberto e costuma receber, como decoração, bandeirinhas e festões coloridos, em recortes de papel crepom e papel de seda, se houver. O grupo dos colonos — sempre nas suas melhores roupas, “domingueiras” — ali se reunirá, em banquetes com mesas longas, após as celebrações religiosas.

A distância, os sinos dobram convidando à oração. As mães preparam as crianças, é domingo. Pouco a pouco, todos convergem para as igrejinhas. Repetem, solenes, os rituais desta vida. Sob seu abrigo, erguido com o esforço das próprias mãos — os mais velhos certamente ainda lembram — projetam a esperança sempre renovada de uma existência melhor, em face da infindável aspereza do dia-a dia.

Maria Cristina Wolff de Carvalho