NEGO MIRANDA

fotografia

Interrogando Nego Miranda – R.Nott Magazine

Publicado por em jul 17, 2014

“A natureza exige contemplação, sintonia e equilíbrio para atingir os seus mistérios, com os olhos e o coração bem abertos. Ela é o que é, independente da vontade e desejos dos homens.”

  – Como, quando, onde e por quê?

       Meu percurso até chegar na fotografia é um pouco tortuoso. No curso médio me formei em técnico eletrônico pela antiga Escola Técnica Federal do Paraná que virou a UTFPR. Trabalhei na Copel, na NCR, onde fui fazer um curso no Rio e aproveitei para fazer também um curso de cinema no MAM, pois sempre adorei uma telinha. Voltei para Curitiba e fui fazer Filosofia na UFPR. Larguei no segundo ano e fui para o Rio em busca de trabalhar com cinema. Trabalhei na Xerox como técnico por dois anos até conhecer o Billy Davis que era produtor e diretor e estava montando uma produtora com o Roberto Faria, a Abracam Filmes. Lá trabalhei inicialmente na montagem e na pós-produção. Fiquei amigo do Pedro Pablo Lazzarini, argentino que era o diretor de fotografia da produtora. Finalmente cheguei na fotografia, ufa! Comecei a aprender fotografia de cinema e ser assistente do Lazzarini. Nas voltas da estrada, como sempre, voltei para Curitiba. Eu sempre volto para lá. Então fui trabalhar na Zap Fotografias, um estúdio de fotografia publicitária. Na prática, aprendi a dominar a técnica, mas foi na produção de livros de fotografia documental que encontrei a linguagem. O meu primeiro encontro com uma máquina fotográfica foi na infância, uma máquina de fole dos meus pais. Lembro também que ganhei uma caixa de brinquedo que vinha com umas químicas para revelar fotos, o meu primeiro encontro com a mágica de revelar imagens.

   – Fale um pouco sobre a sua carreira e sobre seus principais livros.

     Na pergunta anterior falei do meu percurso até chegar na fotografia, mas a minha carreira em si não foi no cinema nem na publicidade, e sim a partir de quando publiquei meu primeiro livro com a Teresa Urban, Engenhos e Barbaquás, que abordava a história da erva mate no Paraná. Gosto de todos meus livros, todos são principais, cada um à sua maneira, cada um com sua história, com o seu jeito. É como com os filhos… Meu segundo livro, Paraná de Madeira, em parceria com Maria Cristina Wolff de Carvalho está esgotado, nasceu de minhas lembranças das casas que morei na infância em Londrina. O terceiro, Igrejas de Madeira do Paraná, também em parceria com a Maria Cristina, nasceu a reboque do Paraná de Madeira. Sentimos que o tema era rico e merecia um livro à parte. Em Morretes, Meu Pé de Serra, de novo com a Teresa Urban, me ocorreu a necessidade de continuar documentando o Paraná e voltar os olhos para o litoral. Achava Morretes uma cidade com muito potencial histórico e fotogênico, optei pelo tema. Finamente cheguei na literatura no quinto livro. Achei que o próximo passo seria Curitiba, a minha cidade natal, para onde sempre retornei. Cheguei à conclusão que Dalton Trevisan era quem entendia a alma do porão curitibano. Resolvi abordar este universo. Selecionei, junto com a Leticia Magalhães, minha filha, frases de sua obra. Frases que resumissem a personagem principal do vampiro: Curitiba. Saí pelas madrugadas e manhãs de serração em busca das imagens desta cidade densa. Finalmente chegamos em Puxando o Fio: histórias de armarinhos, ideia da Teresa, esta parceira, amiga e ser humano raro. Foi nosso último livro e o último dela em um universo de quase quarenta. Que currículo! Ela era apaixonada pelo tema e eu achava que seria uma tarefa difícil, fora do meu cotidiano de paisagens e operários. Ela se foi três meses antes do lançamento do livro e eu fiquei com a tarefa de acabar. Acho que ficou um belo livro, na altura do seu talento.

   – Cidade x natureza. Como se dá esse confronto em sua obra?

     Para mim as cidades são personagens, como a Curitiba de Dalton Trevisan, a Macondo de Garcia Marques. Possuem todas as características humanas, são complexas, apaixonantes e contraditórias. Para nós fotógrafos, cabe aguçar o olhar e descobrir as facetas inesgotáveis que elas expõem. Uma aventura fantástica. A natureza exige contemplação, sintonia e equilíbrio para atingir os seus mistérios, com os olhos e o coração bem abertos. Ela é o que é, independente da vontade e desejos dos homens.

       – Não se veem muitos rostos nas suas fotos, mas sim muitos lugares, e muitas interferências do humano sobre o natural. Quando existe um alguém fotografado por você, quem ele é? Quais são os seus personagens?

     Estes personagens normalmente não têm rosto, estão escondidos atrás das cortinas, mas estão lá nas casas que construíram e vivem, nas marcas que deixaram na natureza, nos becos escuros do centro das cidades, os vampiros esgueirando nas madrugadas. Quando expõem o sorriso como as operárias do tabaco em Cuba, o olhar terno dos homens verdes nos barbaquás são pessoas simples e verdadeiras que valem a pena serem retratadas.

    – Como surgem os seus projetos? Você sai para fotografar com uma temática em mente ou as séries se formam depois?

   Sempre inicio com um projeto pensado, montado e com um tema paranaense com inspiração em fatos da infância e juventude, enfim da minha história. O único que foge á regra é um projeto futuro que se chama Veredas com imagens que fiz pelas andanças no mundo. O tema central são caminhos, estradas, pontes, ruas, becos, alamedas, simplesmente veredas. Adoro esta palavra! A ideia veio de uma rumba lá dos anos cinquenta: Vereda Tropical.

      – Conte um pouco sobre A eterna solidão do Vampiro. Como foi o processo de criação desse livro? Ademais, qual a influência que outras áreas como a literatura e a filosofia exercem sobre o seu trabalho?

     Como já falei o projeto nasceu do anseio de fazer um livro sobre Curitiba. Fiquei pensando de que maneira abordar a minha cidade natal. A primeira lembrança foi Dalton Trevisan, a eterna Curitiba, seu personagem principal. Fizemos uma pesquisa, eu e minha filha Leticia Magalhães, em sua obra em busca de frases que fossem citados locais ou que fosse possível ilustrar. O mais difícil foi conseguir a autorização. Só consegui quando o livro estava finalizado e pronto para ser impresso. Na procura das imagens foram muitas madrugadas e manhãs de nevoeiro em busca de imagens para as frases escolhidas. Usei várias técnicas: pin role digital, fotos em movimento, infrared e outras mais comuns.

     A literatura, a música, as histórias em quadrinhos, o cinema e as artes plásticas sempre me influenciaram. É aí que garimpo o aprimoramento e a renovação da linguagem, uma atmosfera dinâmica. Com filosofia é diferente, é mais estático, é o norte, é o farol, o caminho determinado. Aprendi com Nietzsche que o tempo não passa, somos nós que passamos por ele eternamente.

      – Como foi para você a transição do analógico ao digital? Conte um pouco sobre as suas técnicas preferidas.

   Foi uma transição gradual, lenta e sofrida, porque quando surgiu, o digital não tinha a qualidade que tem hoje. Foi também difícil mudar depois de trinta anos trabalhando com filmes e confinado no escuro dos laboratórios, fazendo o acabamento. Hoje ficamos horas sentados em frente ao computador: a nova sala escura. Difícil foi também aposentar os velhos equipamentos e a certeza que tuas fotos durariam pelo menos cem anos, se bem conservadas. Atualmente ainda não se sabe o quanto dura um DVD, ou um HD, é preciso estar sempre atualizando os originais. A grande vantagem do digital é a resposta instantânea do clic e estar livre das químicas. Agora estou esperando o pós-digital, vamos ver o que vem pela frente.

     Em relação às técnicas, gosto muito de fazer fotos em movimento de câmera com baixa velocidade. Os resultados são sempre surpreendentes, foi a técnica da minha primeira exposição Nuvimento. Sempre que estou com tripé arisco fazer um pin role digital. A descoberta de novas técnicas sempre me entusiasma a encontrar outros resultados.

     – Quando é preto & branco e quando é colorido?

     Colorido só quando a cor for essencial para o objeto fotografado, valorizando o resultado final. Se com as cores não se ganha nada, prefiro o preto & branco; é quando a foto condensa a informação, a composição e as formas. Está tudo concentrado sem a distração da cor.

      – Principais influências e heróis?

     Na fotografia, Robert Frank e Walker Evans em primeiro plano.

     Na literatura, Guimarães Rosa, Borges, Dalton Trevisan e García Márques.

     Na música, são muitas, Leonard Cohen, Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré e por aí afora. Sou tarado por música cubana e por tango.

     No cinema, Kurosawa, Fellini, Glauber, Arthur Penn e Monicelli.

     Nas histórias em quadrinhos, Will Eisner, Hal Foste e Hugo Pratt.

     Nas artes plásticas, Edward Hopper, Van Gogh e Andersen.

     Na filosofia, Nietzsche estourado em primeiro lugar, depois vem os filósofos anarquistas, Bakunin e Noam Chomsky.

    Meus heróis são dois, Nietzsche e Che Guevara.

      – Quais são os seus projetos neste momento?

     Tenho um projeto pela Lei Rouanet sobre os cemitérios rurais do Paraná, chamado Silêncio a sombra dos pinheirais. Aqueles cemitérios no fundo das igrejinhas, perdidos nos Campos Gerais, ao lado do que restou de matas de araucárias. Geralmente em colônias polonesas ou ucranianas. Eu sempre tive sina de fotografar cemitérios mesmo antes de ser fotógrafo. Basta passar ao lado de um, acompanhado de uma máquina, entro e faço a festa. Pedindo licença para os Exus da Kalunga, é claro.

     Estou participando de dois projetos da Maria Cristina Wolff de Carvalho: Rumo a Navegantes, sobre a história desta cidade catarinense e Rumo ao norte do Paraná sobre a colonização no Norte pioneiro.

     – Existe alguma pergunta que você sempre quis responder e nunca te perguntaram?

     Acho que você fez esta pergunta, é a que fala dos rostos, da interferência humana na natureza, dos personagens. Das pessoas que conhecem o meu trabalho, a maioria se lembra mais das paisagens, das fotos de arquitetura, mas gosto muito das fotos dos Homens Verdes e dos trabalhadores do tabaco em Cuba. Prezo também as imagens que o homem marca sua passagem por este mundão, sem destruí-lo. Tudo isso nunca antes me foi perguntado e amei responder. 

Por R.Nott Magazine

Envie um Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *