NEGO MIRANDA

fotografia

Luz e Aço

Luz e Aço: a Grande Arte

Dobruski e Miranda

Uma faca é apenas uma faca, ferramenta ancestral que toma possível cortar, separar materiais, discriminar, abrir, repartir. Ferramenta das ferramentas, esta coisa simples pouco tem se modificado desde que uma pedra lascada provou ser de importância fundamental na manutenção da vida humana. Instrumento vital para este ser pouco dotado de força e habilidades naturais que a partir daí pôde construir outras ferramentas e utensílios. Essa ferramenta cotidiana, presente de manha à noite em nossas vidas, exerce um estranho fascínio, talvez testemunho de uma dependência milenar, da confiança depositada neste objeto que permite preparar alimentos e construir abrigos, abrir um pacote ou talhar uma escultura. É a esse instrumento que Maurício Dobruski dedica sua vida. Jovem senhor de seus segredos, Maurício entrega-se à busca da maestria na arte de transformar um pedaç de metal bruto em uma escultura, uma jóia, uma ferramenta, ou tudo isso junto. Herdeiro de conhecimentos transmitidos de pai para filho por gerações, é guardião de habilidades artesanais praticamente esquecidas em nossa época de produção em série, onde o tempo dedicado à confecção de um objeto, qualquer objeto, perdeu seu sentido assim como as coisas do nosso dia-a-dia perderam sua aura. Ele expande suas habilidades, unindo conhecimento ancestral à informação garimpada na Internet na busca da última tecnologia: da liga de metal mais adequada às funções pretendidas e do material mais resistente, à técnica mais avançada para o tratamento desta ferramenta tão antiga que muitas vezes, nas suas mãos, deixa de ser uma ferramenta, transformando-se em emblema de uma lembrança primeva, do conforto e segurança pela posse de um instrumento capaz de dividir as matérias, impérvias a dentes e garras, dispondo-as a serviço da humanidade. Então acontece um outro cruzamento de lâminas. O relâmpago no metal polido é cortado na sua duração pelo escultor da luz e do tempo. O fotógrafo Nego Miranda secciona a luz na busca do instante perfeito, deste fio entre as eternidades, o instante que um homem decide fixar, separando-o para sempre do fluxo contínuo dos instantes sucessivos. A luz, desenvolvida pelo aço e separada pela lâmina do obturador, é fixada, trabalhada e trazida ao nosso olhar pelo outro trabalho, o do fotógrafo que, por sua vez mestre de seus segredos, transforma trabalho e lâmina em lâminas de luz fixa, aço quente, momentos que não escorrem, para que nós possamos nos servir das suas sabedorias.

Geraldo Leão – 2000