NEGO MIRANDA

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Paraná de Madeira

O Homem e a Casa. 

Ao sentir a primeira chuva, o primeiro momento de calor ou o frio intensos ou ao ouvir o rugir do predador, o homem buscou abrigo na sombra ou nas alturas de uma arvore ou no aconchego e proteção de uma caverna.

Percebeu-se frágil diante das intempéries e vulnerável ao confrontar-se com seres mais fortes e com sua fome inadiável.

Ao procurar abrigo, o homem cria a casa que no tempo, vai transcender suas características puramente utilitárias, agregar valores afetivos e o papel de testemunha da construção da história de quem a habita, seus medos, sua coragem, sua capacidade de reinventar-se e desenvolver a sua curiosidade. Abre-se uma porta para sucessão interminável de questionamentos capazes de levar a novas soluções , e estas a novas indagações, e sucessivamente em um circulo continuamente alargado de modo generoso.

As paredes de uma casa vão estar sempre impregnadas pelos risos dos triunfos e a alegria ingênua, mas também umedecidas pelas lágrimas das perdas. São memórias, são registros de coisas vividas, passadas sempre pulsantes, mobilizadoras de lições nunca aprendidas.

A casa é abrigo e palco no qual se desenrola o drama cotidiano, as vêzes mesquinho, da sobrevivência.

Defendido, o homem ganha relativa paz no convívio com os seus sempre insolúveis e renovados tormentos. Pensa, experimenta e ampliar seu conhecimento, partilhando-o com quem estiver disposto a essa encantada aventura, constituindo desse modo, sua herança.

A casa é o refúgio para a elaboração do desejo e do sonho, este pensado como transgressão dos limites do possível, que , uma vez admitido como algo viável faz com que as barreias comecem a ruir .

Com o tempo, a rusticidade inicial vai sendo polida, dando lugar a um refinamento construído pela vivência continuada. Seus espaços ganham contornos de um relicário de valores simbólicos e memórias de importância extremamente pessoais.

A casa encobre mistérios, sendo o maior de todos aqueles que a habitam.

De morada de grupos transforma-se em habitação unifamiliar que por necessidade de defesa e organização da produção, agrupam-se em vilas , aldeias e, ainda mais a frente, em cidades, intensificando-se os processos de troca, bem como situações conflituosas.

O homem constrói uma cultura gregária para qual dá sua contribuição individual que virá fundir-se com outras, criando um fluxo sempre realimentado por renovadas experiências.

A casa tem uma linguagem. Fala desde a arrogância de uma riqueza ostentada até o despojamento imposto pela carência.

É nela que tem origem todo um processo civilizatório que permite ao homem pensar e recriar a vida, com inteligência e determinação, e também viver nas sombras que ocultam suas pulsões temáticas, passiveis de eclodir, inesperadamente, e demolir suas utopias tão corajosamente urdidas e tão covardemente abandonadas.

É ainda no recolhimento da casa, pendurado em suas interrogações, que ele vive a constante tentativa de reapaixomamento pelo amor, o fracasso dos sonhos e a renovação das esperanças.

Somos todos medíocres heróis do viver cotidiano. Matamos um dragão a cada dia sem perspectiva de canonização.

O homem é uma espécie fascinante e invariável, derrotado por sua história. Reabilita-se ao inventar e reinventar as linguagens e por elas expressar seus modos de ver e sentir a vida, recuperando pela arte, uma pretendida dimensão de grandeza

Luis Humberto

Abril de 2000