NEGO MIRANDA

fotografia

Morretes Meu Pé de Serra

O município de Morretes, situado na região litorânea do Paraná, reúne algumas características que o tornam singular na paisagem e na memória do Paraná. Apesar de compor o ambiente litorâneo,  o município dista 35 quilômetros do mar e cresceu à sombra das magníficas montanhas que compõem a Serra do Mar no Paraná. Nessa região típica de “pé de Serra”, estende-se uma paisagem variada, em que se combinam ambientes distintos, desde a floresta ombrófila densa às áreas de várzeas, com rios caudalosos, cujas nascentes na Serra do Mar asseguram regime perene de águas cristalinas. As montanhas delimitam o município que divide a Serra do Mar, a Oeste e ao Norte,  com São José dos Pinhais, Piraquara, Quatro Barras e Campina Grande do Sul, todos na Região Metropolitana de Curitiba.

A posição privilegiada de Morretes,  povoado fundado em 1721, transformou o município um ponto de passagem obrigatório para as mercadorias de exportação que buscavam o porto de Paranaguá ou de lá chegavam, rumo ao planalto de Curitiba.

Chamado inicialmente de Nundiaquara – nome do rio que cortava o povoado (“Nhundia” = peixe, jundia; “Quara” = empoçado, buraco) , passou a ser definitivamente chamado de Morretes, nome associado à sua paisagem natural, em 1870.

A intensa atividade econômica da região, sobretudo nos séculos XVIII e XIX deram feições características ao povoado, onde se encontram exemplares raros da arquitetura colonial. Ao mesmo tempo, essa vitalidade econômica produziu frutos nas artes e nas letras. É longa a lista de poetas, escritores, historiadores e artistas plásticos que a nascidos em Morretes. Entre eles, destacam-se:

JOSÉ GONÇALVES DE MORAES (1849-1909) – Escritor romântico, foi contemporâneo de Fernando Amaro e Julia da Costa.

ROCHA POMBO (1857-1993) – Jornalista, historiador e escritor, dirigiu vários jornais em Curitiba e escreveu livros de história do Paraná, em especial,

ADOLFO WERNECK (1879-1932) – Poeta simbolista típico, de feição satanista. Humorista, colaborou nas principais revistas simbolistas.

SILVEIRA NETO (1872-1942) – Poeta de origens portuguesas, passou sua infância em Morretes e estudou em Curitiba e no Rio de Janeiro. Integrou o grupo literário do “Cenáculo”, liderado por Dario Velozzo e Júlio Perneta, que a partir de 1895, passou a publicar a revista do mesmo nome. Esse grupo causou a primeira onda de agitação intelectual que colocou o Movimento Simbolista paranaense na vanguarda literária nacional.

JOSÉ GELBCKE (1879-1960) – Advogado e poeta, ferrenho membro do movimento anticlerical que caracterizou diversos literatos paranaenses nas primeiras décadas do século XX

RICARDO DE LEMOS (1871-1932) – Simbolista ortodoxo, jornalista e funcionário público, colaborou nas revistas O cenáculo, Clube Coritibano, A penna, O sapo, Azul, Breviário, Estelário, e outras.

ALBERTO CARDOSO (1930-1992) – Poeta de grande sensibilidade fez uma poesia denotando forte riqueza interior. Grande declamador, boêmio inveterado, foi proprietário do Bar do Cardoso, local de encontro de intelectuais e literatos paranaenses durante toda a década de 1980.

THEODORO DE BONNA (1904-1990) – Estudando no atelier de Alfredo Andersen entre 1922 e 1926 e na Galleria dell’Arte Moderna de Veneza entre 1927 – 1936, De Bonna expôs seus quadros em diversos salões de artistas italianos e na Bienal Internacional de Arte Moderna de Veneza.

JOÃO TURIN (1880-1949) – Escultor, ganhou, graças a seu talento precoce, uma bolsa de estudos para a Europa, onde fez o curso de Belas Artes na Real Academia de Bruxelas na primeira década do século. Transfere-se para Paris em 1911 onde convive com outros artistas paranaenses como Zaco Paraná e Emiliano Perneta.

LANGE DE MORRETES (1892-1954) – Frederico Lange, conhecido como Lange de Morretes, descendente de alemães, foi para Munique em 1910 onde cursou a Escola Superior de Belas Arte. Voltou a Curitiba dez anos depois e dedicou-se à pintura, à ciência e ao magistério em sua própria escola de pintura. Desta, saíram nomes como Arthur Nísio, Kurt Boiger entre outros. Com Turin e Guelfi desencadeou o Movimento Paranista.

No século XX, novos valores agregaram-se aos da memória e da paisagem, com o reconhecimento, cada vez maior, da importância dos ambientes naturais preservados. Morretes detém hoje algumas das áreas mais íntegras da Mata Atlântica brasileira. valorizando ainda mais sua paisagem nativa.

Todas essas característica contribuem, sem dúvida, para que Morretes chegue ao século XXI como um dos poucos municípios do Paraná onde a população residente em área rural é superior à população urbana.

Em meio a essa magnífica paisagem natural, comunidades quase seculares como a de Rio Sagrado, Nova Itália, Fartura, América de Cima e América de Baixo, apesar das origens bem diversas,  constituem exemplos cada vez mais raros de convívio harmônico com a natureza tropical.

“Meu Pé de Serra” se propõe a contar – em imagens fotográficas e textos – a história do município a partir da história dessas comunidades, mostrando a integração do homem com seu ambiente natural, a força da paisagem, as tradições e a cultura, as lendas e o cotidiano.

O livro deverá abordar, de forma simultânea, várias faces e interfaces da história de Morretes:

–  a conquista do espaço – sobretudo com a construção da estrada de ferro Curitiba – Morretes – Paranaguá e a Estrada da Graciosa – no século XIX;

– a economia da época – do beneficiamento à exportação de madeira e erva-mate;

– a ocupação do território com a formação do povoado e das comunidades rurais;

– a arquitetura colonial como representação da vida econômica;

– a integração cultural das diferentes comunidades – do barreado ao fandango, dos “americanos” aos “italianos”;

– as artes e as letras – terra de artistas e intelectuais;

– a descoberta do lazer em contato com a natureza – da conquista do Pico do Marumbi às delícias das corredeiras do rio Nhumdiaquara;

– o moderno reconhecimento do valor da paisagem.

O livro “Meu Pé de Serra” servirá como fonte de informação e consulta  sobre todos esses temas, tratados de forma integrada, e também como registro da vida do caboclo litorâneo e de sua integração com a paisagem, valorizando um modo de vida que, em grande parte do Estado e do País, se extinguiu com o desaparecimento da paisagem natural original. Com sua paisagem, com a floresta preservada, os rios límpidos, o casario colonial, Morretes oferece uma rara oportunidade de preservar – e principalmente, de divulgar – parte de uma história e de uma memória cada vez mais rara e ameaçada.