NEGO MIRANDA

fotografia

Nuvimento

Os Nus do Nego Miranda

A fotografia brasileira atual tem sido demasiadamente cautelosa. Pouco se experimenta, pouco se brinca com as infinitas possibilidades que o meio oferece – e muito do que se vê mantém-se nos limites seguros do já explorado. A razão para isso ainda está por explicar-se, mas acho que, certamente, vamos encontrar em sua raiz o despreparo técnico e a séria insegurança cultural do nosso fotógrafo. É claro que existem as exceções de praxe – que nem por serem de praxe deixam de ser honrosas – e é também muito positivo ver surgir em nossa paisagem uma saudável garotada de espírito aberto, percepção aguda e inteligência visual invejável. Ainda assim, um olhar para o conjunto da nossa produção fotográfica não acontece sem sobressaltos: a desconcertante sensação de dejá vu é mais frequente do que poderia ser aconselhável.

O nu, por exemplo, esse tema tão rico em formas e conotações e tão absolutamente clássico, tem recebido por aqui um tratamento pouco condizente com seu significado histórico, com a imensa riqueza plástica e conceitual que encerra e com o natural poder de atração que tem sobre nós. Nossas imagens do corpo nu debatem-se entre o voyeurismo ginecológico das revistas pseudo-eróticas e o bom-mocismo formalista capaz de transformar as melhores bundas em lamentáveis arremedos de paisagem. No meio – a lembrar que só dependemos dos Estados Unidos naquilo que ele tem de pior – as revistas de padrão “internacional” oferecem competentes produções em que gostosíssimas atrizes e manequins despem-se para o olhar medíocre do bom gosto oficial.

Há, entretanto, uma outra visão – mais fotográfica, mais exploratória, aquela dos fotógrafos menos comprometidos com as encomendas do público médio. São as propostas pessoais, algumas delas investigações sérias, ainda que poucas vezes possam considerar-se trabalhos amadurecidos. Mas, mesmo aqui, nossa fotografia se contém, revela sua timidez. A escolha é pouca – e entre rótulos: ou ficamos com o nu conceitual, preocupado apenas com o sujeito e não com o processo ou nos resta o nu escultórico, mais firmemente instalado na história da fotografia mas que, igualmente, independe do meio. E que, de lambuja, é frequentemente frio, pouco sensual e nada erótico.

Aí então, no meio desse panorama de certa monotonia, aparecem os nus do Nego Miranda. Depois de saborear por longos minutos a alegria de ver alguma coisa realmente nova – e boa -, de ver a imagem de um corpo nu tratada com carinho, competência e uma sensualidade latejante, depois disso é que se começa a pensar mais detidamente nas imagens em si.

De saíde, chama a atenção seu caráter essencialmente fotográfico, no sentido do envolvimento e do compromisso com o meio. Em especial, pelo uso inteligente das limitações da fotografia em relação ao movimento, valendo-se delas para criar não apenas resultados de beleza plástica mas todo o clima de suavidade que caracteriza o conjunto. Essa suavidade, o efeito de esfumado dos nus do Nego Miranda, nada tem a ver com o pictorialismo do começo do século, mera busca de efeitos “artísticos” próprios de outros meios pela negação das qualidades intrínsecas da fotografia. Ao contrário, o procedimento pelo qual é obtida – movimento da câmera e do modelo – em nada diminui o processo fotográfico. Antes o reforça e valoriza, pelo emprego criativo de suas próprias limitações e pela transformação de negativos certamente difíceis em cópias de excelente qualidade.

E tem mais: as fotografias do Nego Miranda falam uma linguagem de pura sensualidade, não apesar do véu que nos separa das formas cruas – e exuberantes, se percebe – mas por causa dele. A indefinição não traduz recato, nenhuma tentativa pudica de ocultar sexo ou seios; traduz, ao contrário, um clima de intimidade – de interior, de quarto, de cama. De saciada cumplicidade entre fotógrafo e fotografada – mesmo que isto não seja verdade, não interessa.

Esses nus do Nego nada têm a ver com a excitação do uísque antes – mas têm tudo com a quente intimidade do cigarro depois. E será que existe algo mais erótico que a intimidade?

Luiz Carlos Felizardo – “O Relógio de Ver” 

 

NUDE-VEMENT

The current Brazilian photography has been extremely cautious. A little has been experimented or tried with the endless possibilities offered by this trade Most of what we see, it’s been kept in the safe limit of what is already explored. The reason for this is yet to be explained, but I think we will surely find its roots in the technical incompetence and the serious cultural insecurity of our photographer. It’s obvious that there are exceptions to the rule, and these exceptions are not less honored and it’s very positive to see in our scenery a healthy young generation with an open mind, sharp perception and on enviable visual intelligence. However, there is always a shock when we look to our photo production set: an uncomfortable  sensation of dejd vu is more frequent than advisable.

The nude, for example, is such a rich theme in its features and connotations absolutely classic, it’s not getting the proper treatment for its historical significance with the plastic, conceptual richness and the natural power that is has up on us. Our nude body images are fighting between the gynecologic voyerism from the pseudo-erotic magazines and the conservatism able to transform the best buttocks in disappointing imitations of the real features. By the way, remind that we depend on the US only on the worst they have, the so called “international” pattern magazines offer competent productions in which very sexy models and actresses strip for the mediocre look of the “official good taste”.

There is at least, another vision, more photographic, more exploring, from the photographers less committed to the demand of the average public. Those are the personal proposals or suggestions, some of them are serious investigations even if considered a matured work sometimes. But even here our photography contains Itself and reveals its shyness The choices are few: or we maintain the conceptual nude only concerned about the subject not with the process or only the sculptural nude is left for us, firmly installed in the history of photography which is equally not depending of the trade, frequently cold, less sensual and not erotic at all.

Therefore, in the midst of this panorama of certain monotony, that’s when the nudes of Nego Miranda shows off. We start thinking with detainment about those very images, after the long minutes of happiness for seeing something real new and good, after seeing the image of a nude body treated with loving care, competence, creativity and throbbing sensuality.

To start, attention is paid to the essentially photographic character, and the sense of involvement and commitment with the trade in special by the intelligent use of the limitations of photography related to the movement, taking advantage of. them not only to create plastic beauty results but the gentle mood that characterizes the set up. This gentleness, the smoky effect on Nego Miranda’s nudes has nothing to do with the pictorlalism of the beginning of the century, it’s just the search for the “artistic effects” typical of other resources by the denial of the intrinsic qualities of photography. On the contrary, the proceeding by which the movement of the camera and the model is obtained, doesn’t diminish the process but reinforces and valorizes it, by the creative use of its own limitations and through the transformation of the difficult films into copies of good qualities.

And there is more: Nego Miranda’s photography uses a language of pure sensuality, nothing to do with the veil that separates us from the raw of exuberant features. It is noticeable – because of him. That non definition translates a mood of intimacy, of interior, room and bed, not the chastening attempt to hide sex or breast. Of quenched complicity between photographer and the photographed – even though this is not true, doesn’t matter.

These Nego Miranda’s nudes has nothing to do with the excitement of the whisky before – but has everything to do with the hot intimacy of the cigarette after, is there something more erotic than intimacy?

Luiz Carlos Felizardo – “O Relógio de Ver”